Ramsh Balsekar



Os psicólogos dizem que o condicionamento total que você recebeu até a idade de três ou quatro anos é seu condicionamento básico. Haverá mais condicionamentos, mas o condicionamento básico que cria a personalidade é a soma dos genes mais o condicionamento ambiental. Chamo isso de programação. Cada organismo corpo/mente é programado de maneira única. Não há dois organismos corpo/mente iguais.

Problemas divergentes são causados pelo intelecto, ao dividir o que por natureza é total e indivisível. O intelecto cria o problema ao dividir polaridade. Os opostos que existem não podem existir por si mesmos. Não pode haver o "para cima" sem o "para baixo", não pode haver a beleza sem a feiúra. Mas o que o intelecto quer é, isso ou aquilo. Ao comparar e querer selecionar, o intelecto cria um problema divergente, e problemas divergentes jamais podem ser solvidos. Um problema divergente pode apenas dissolver através da compreensão do próprio problema, da compreensão que ele realmente não é um problema, que ele é criado pelo intelecto querendo escolher entre os opostos que não são opostos de maneira nenhuma. São interrelacionados.

Ramsh Balsekar

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Vamos supor que haja duas pessoas: uma tenta superar seus limites e consegue, a outra não consegue. O que eu entendo é que, seja aquela que prospera, seja aquela que fracassa, cada uma o faz porque isso é o destino de cada organismo corpo/mente - que é a vontade de Deus.

A minha pergunta é: Qual das duas vontades prevalece? Aquela do indivíduo ou aquela de Deus? Pela sua própria experiência, até que ponto seu livre arbítrio prevaleceu?

Quando você quer algo e você trabalha para isso e isso acontece, acontece porque sua vontade coincidia com a vontade de Deus.

Que você aceite a vontade de Deus ou você não aceite a vontade de Deus, isso também é a vontade de Deus!


Uso a palavra "programar" em referencia às características inerentes ao organismo corpo/mente. A "programação" para mim significa os gens mais os condicionamentos ambientais. Fisicamente você não pôde escolher seus pais, portanto você não teve escolha quanto aos seus genes. Do mesmo modo, você não teve escolha quanto ao ambiente onde você nasceu. Portanto você não teve nenhuma escolha sobre os condicionamentos da infância que você recebeu naquele ambiente, que inclui o condicionamento em casa, na sociedade, escola e a igreja.

Quando qualquer coisa que aconteça é aceita, então não há nenhuma infelicidade, não há nenhuma miséria, nenhuma culpa, nenhum orgulho, nenhum ódio, nenhuma inveja. O que ha de errado nisso? E, como já disse, as ações acontece através desse organismo corpo/mente e, se esse individuo descobre que uma atitude feriu alguém, nasce a compaixão. Como a compaixão poderia surgir se não houvesse nenhum coração?

O ser humano tem o intelecto para saber que se fizer certas coisas, coisas terríveis acontecerão? Tem o intelecto para saber que se produzir armamentos nucleares ou armas químicas, então as pessoas as usarão e coisas terríveis acontecerão ao mundo? Tem o intelecto - portanto se tiver livre arbítrio, então por que o faz? Se possui o livre arbítrio, por que reduziu o mundo a essa condição?

O que o ser humano pensa que ele deva fazer é baseado na programação.

Como a ação acontece? A resposta é que a energia dentro deste organismo corpo/mente produz a ação de acordo com a programação.

As palavras do Buda são muito claras. Quem tem o controle sobre aquilo que acontece? Deus tem o controle! Isso, como vimos, é à base de cada religião. É, mas porque existem as guerras religiosas se isso está na base de cada religião? São os intérpretes que causam estas guerras! E como é que isso poderia acontecer se não fosse a vontade de Deus?


Por que Deus criou o mundo como é? Mas veja, um ser humano é somente um objeto criado que é parte da totalidade da manifestação que veio da Fonte. Portanto minha resposta é: "um objeto criado jamais poderia conhecer seu criador!" Deixe-me trazer uma metáfora. Vamos imaginar que você pinte um quadro, e nesse quadro você pinta uma figura. Então aquela figura quer saber primeiro, por que você, como um pintor pintou esse quadro particular, e segundo, por que você pintou aquela figura de modo tão feio! Veja, como pode um objeto criado jamais conhecer a vontade do próprio criador? Meu ponto de vista é que, embora seja assim, isso não o impede de fazer o que você pensa que você deva fazer! Aceitar que nada acontece a menos que seja a vontade de Deus, isso não impede a qualquer pessoa de fazer o que ela pensa que deva fazer. Poderia ser de outra forma?

A energia dentro deste organismo corpo/mente não permitirá a este organismo corpo/mente permanecer inativo nem mesmo por um momento. A energia continuará a produzir alguma ação, física ou mental, a cada instante, de acordo com a programação do organismo corpo/mente e o destino do organismo corpo/mente, que é a vontade de Deus. Mas isso não impede a você, que ainda pensa que é um indivíduo, de fazer o que você pensa que você deve fazer. Portanto, o que de fato eu digo é, "Aquilo que você pensa que você deve fazer em qualquer situação, em qualquer momento particular, é precisamente aquilo que Deus quer que você pense que você deve fazer!" Definitivamente, aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer o que você pensa que você deve fazer. Vê? Aliás, você não pode fazer nada mais que fazê-lo!

Aquilo que você gosta só pode ser porque é a vontade de Deus que você goste. Nada pode acontecer a menos que seja Sua vontade.

Cada vez mais os cientistas estão chegando à conclusão que os místicos sempre sustentaram - de que qualquer ação que aconteça, podemos sempre buscar o motivo na programação.

Você afirma que você sabe que deveria se conter, então por que você não se contém? Se um organismo corpo/mente não é programado para trair sua esposa, então qualquer coisa que digam os outros, ele não o fará. Se você for programado de maneira que você não levantará sua mão contra ninguém, você começará a matar as pessoas? Agora, se existisse uma lei permitindo que você bata em sua esposa sem que você corra nenhum risco, você começaria a surrar sua esposa? Não, a menos que o organismo corpo/mente seja programado para fazer isso, e se é programado para fazer isso, o fará de qualquer jeito. Então como disse, aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer qualquer coisa que você pense que você deva fazer. Faça-a! Faça exatamente aquilo que você acha que deva ser feito!

Se você quiser você pode jogar fora o conceito de destino e dizer que ninguém realmente pode saber alguma coisa sobre nada. Ótimo! Não há nenhuma necessidade de manter o conceito de destino. Afinal de contas, se aceita que o que acontece não está em seu controle, então quem estaria preocupado com o destino?


Toda religião te pede para se livrar do ego, mas "aquele" para quem as religiões falam para se livrar do ego - é o ego. É falado para o ego se livrar do ego! Mas o ego não vai cometer suicídio. Portanto a questão realmente é: Quem criou o ego? Que temos que nos livrar do ego - de acordo. Mas quem criou o ego? Você não criou o ego. De onde poderia o ego ter vindo? De onde ele poderia ter vindo exceto da Fonte! Se você chama essa Fonte de Consciência ou Energia Primordial, ou Deus ou Ciência (awareness) não faz diferença, com tanto que você entenda que é a Fonte.

Portanto o ego também veio da Fonte. É por isso que eu chamo o ego de Hipnose divina. A hipnose é - "eu" considero a mim mesmo um ser separado com um sentido de que posso fazer. Por que a Fonte criou o sentido de separação? Porque sem a separação as relações inter-humanas não aconteceriam. É apenas por causa dessa separação que nós temos amizade e inimizade, amor e ódio. Tudo isso acontece apenas porque cada indivíduo considera a si mesmo um ser separado. E sem as relações inter-humanas a vida como conhecemos não aconteceria.

Com o ego tendo sido destruído o sábio não fica orgulhoso; o sábio não se sente culpado, não odeia nem inveja ninguém. Portanto a ausência de culpa, orgulho, raiva, inveja, torna a vida pacífica. E é para esse fim que a busca toda tem sido - a paz no estado desperto que existe no estado de sono profundo. Meu conceito de toda a busca espiritual é ter aquela paz que prevalece durante o sono profundo, mesmo durante o estado desperto, durante nossa vida diária de trabalho. E esse tipo de paz prevalece em nossa vida diária se isto acontece: não há ego para sentir culpa, orgulho, raiva ou inveja.

Cada evento, cada pensamento, cada sentimento que diz respeito a qualquer "indivíduo" é um movimento na consciência, trazido pela Consciência (Brahman).

Cada coisa ou objeto no universo manifesto é um produto da Consciência, tanto durante a ilusão quando a manifestação parecia ser "real", como depois da realização da verdade. Não somos nada além da Consciência, e nunca fomos nenhuma outra coisa. Talvez seria mais fácil de "entender" a Verdade, se fosse concebido que nunca houve nenhum "nós" em momento algum, e tudo o que existe - e tudo o que sempre existiu - é a consciência (Brahman).

"Nós" pensamos sobre nós mesmos, consciente ou inconscientemente, como seres sencientes e, portanto como separados da manifestação: nós somos o sujeito e o resto da manifestação é o objeto. A realidade é que "nós" como fenômeno manifestado, somos na verdade nada além de uma parte do universo manifestado. O que nos faz pensar de nós mesmos como separados é o fato que o aparente universo torna-se conhecido a nós, como seres sencientes, através da senciência operando através das faculdades cognitivas. Essa "senciência", como um aspecto da própria Consciência, é uma manifestação direta da "mente total" (Brahman). E é por isso que não conseguimos nos livrar do profundo sentimento de que "eu" sou diferente da aparência manifesta. E assim de fato somos, mas a ilusão (Maya) consiste no fato de que em vez de considerarmo-nos coletivamente como a senciência que nos capacita reconhecer a manifestação (incluindo os seres sencientes) que apareceu na Consciência, consideramos a nós mesmos como entidades individuais separadas. E aí reside nosso sofrimento e prisão.

Tão logo haja a realização (o despertar para o fato) que nós não somos entidades separadas, mas sim a própria Consciência (com a senciência atuando como um meio para reconhecer a manifestação), a ilusão de separação - a causa de nosso sofrimento e aprisionamento - desaparece. Há então uma percepção clara de que não manifestos, somos Nômenos (oposto de fenômenos), e enquanto manifestos, somos aparência - não mais separados do que substância e forma (o ouro e os ornamentos de ouro). A manifestação surge do não manifesto e no devido tempo submerge de volta no não manifesto. Os seres humanos como indivíduos são realmente muito irrelevantes, exceto, é claro, como personagens ilusórios numa peça num sonho que é conhecida como vida.


A Consciência impessoal é o Shiva ou Atman; ou o Ser, como Ramana Maharshi costumava dizer. E o jiva ou o ser que é o "ser egoísta", é a consciência identificada. O que Ramana Maharshi costumava dizer é que a Consciência é o oceano todo. A Consciência universal ou o Ser é o oceano e o jiva ou a consciência identificada é uma bolha. Mas a bolha em si, enquanto permanece uma bolha, está aparentemente separada. Entretanto, o que é a bolha senão água? E quando a bolha estoura, para onde ela vai? Ela se torna o oceano.

Quando a compreensão acontece, não faz diferença que palavras são usadas ou que mestre as usou. Cada mestre usou palavras diferentes apenas por uma razão: sua audiência era diferente, as circunstâncias diferentes, as pessoas diferentes e os tempos diferentes.

Tudo o que existe é a consciência. Naquele estado original chame-o de realidade, chame-o de absoluto, chame-o de um nada, naquele estado não havia razão de estar ciente de nada. Assim a Consciência-em-repouso não estava ciente de si mesma. Ela tornou-se ciente de si mesma apenas quando esse repentino sentimento "Eu Sou" surgiu. O "Eu Sou" é o sentimento impessoal de estar ciente. E foi ai que a Consciência-em-repouso tornou-se Consciência-em-movimento, quando a energia potencial tornou-se energia de fato. Elas não são duas. Nada separado sai da energia potencial.

A Consciência-em-movimento não está separada da Consciência-em-repouso. A Consciência-em-repouso torna-se a Consciência-em-movimento, é esse momento que a ciência chama de Big Bang, o místico chama de o repentino surgimento da consciência (awareness).


Por trezentos anos a física Newtoniana prevaleceu, dizendo que você pode pegar um pedaço do universo, você pode observá-lo e pode entender aquela parte. Mas agora, desde que a teoria da mecânica quântica apareceu, uma partícula se move e o cientista pode saber apenas a sua localização e a sua velocidade, mas não ambos. Se ele sabe a velocidade, ele não pode saber o local onde a partícula estará. Ele não pode saber as duas coisas. Todo o universo e o seu funcionamento estão baseados em polaridade, opostos interconectados: homem-mulher, sujeito-objeto, acima-abaixo, bem-mal, doente-saudável, felicidade-tristeza. Em todo o universo não existe nada que é estático, nenhum planeta, nenhuma galáxia. Tudo está movendo e o movimento significa mudança.

A mente humana pensa em termos laterais, mas quase tudo no universo é circular. Qualquer coisa que muda tem que voltar novamente. O cientista diz hoje que falar num mundo no qual tudo é preciso, constante e mensurável é uma proposição impraticável. Em tal mundo um pequenino elétron dentro de todo átomo teria que trabalhar a cada instante sem parar. Ele queimaria a si próprio. Toda a energia pararia. Tudo voltaria dentro de um núcleo.

A vida é incerteza. Isso é o que o místico tem dito por milhares de anos, e agora o cientista concorda. Temos que viver com a insegurança. Temos que viver com a mudança. Segurança é um mito. Você não pode viver com segurança; e tentar fazer isso significa frustração. Compreender profundamente isso e aceitar que viver e que a vida está baseada em mudança, a pessoa gostando disso ou não, é um grande passo a frente.

O amor e o ódio são opostos interconectados na fenomenalidade. Na fenomenalidade, nada neste universo pode existir exceto em bases duais. Nada é único, nada é constante, nada. Tudo está mudando o tempo todo. A mudança e os opostos interconectados são a própria essência da existência.

A dificuldade surge quando a mente-dividida do sujeito-objeto não aceita que o amor e o ódio são opostos, que o bem e o mal estão interconectados. Um não pode existir sem o outro. A beleza não pode existir por si mesma. No momento que você fala da beleza, a feiúra já está lá. No momento que você fala da bondade, o mal já está lá. Como você pode falar da beleza na ausência da feiúra? O ser humano quer experimentar uma e não a outra. Isso não pode ser feito.

Nada pode ser constante na vida. A mudança é a própria base da vida. Também com a felicidade, a infelicidade está automaticamente conectada com ela, pois a mudança é inevitável. A miséria vem porque a mente-dividida compara, julga, e quer a felicidade à exclusão da infelicidade. A mente-dividida não aceita que a mudança está fadada a acontecer.

Quando surge a compreensão que, "isso também passará", seja miséria ou felicidade, essa compreensão trará uma tremenda mudança na perspectiva. Então quando há alguma compreensão, você não considera que aqueles que não a possuem são indignos, você não se considera ser "um favorito de Alá", pois você sabe que este estado de consciência passará, e outros estados de consciência virão. E quando os outros estados de consciência surgirem, você não se sentirá miserável, pois eles não eram totalmente inesperados. Isso não trará a miséria na profundidade que teria trazido anteriormente. Portanto a base dessa aceitação é que tudo está movendo, e, portanto a mudança é a própria base da vida e basicamente tudo é ilusão.

Qualquer coisa que eu diga, ou que qualquer pessoa diga, qualquer coisa que as escrituras dizem, é tudo um conceito. Precisamos de conceitos para comunicar até que a mente tenha atingido um estágio onde ela percebe que o que ela está buscando está além da compreensão dela.


A analogia do espelho para a Consciência, a qual reflete tudo, não retém nada, e em Si mesma não tem existência perceptível. Isto é, a Consciência é o pano de fundo do que parecemos ser como objetos (fenômenos), e ainda ela não é algo objetivo (um objeto). Assim como um reflexo no espelho é uma mera aparência sem nenhuma existência, e o espelho é o que tem existência, mas não é afetado de maneira nenhuma pelo que está refletido, assim também o aparato psicossomático (o organismo corpo-mente), sendo apenas uma aparência na Consciência, não tem existência independente. A Consciência na qual ele aparece não é afetada de forma nenhuma pela aparência dos objetos nela.

A Fonte que criou esta manifestação dentro de Si como um reflexo, está fazendo esta manifestação funcionar. Portanto, a manifestação e seu funcionamento, os quais chamamos de vida - toda ela é um reflexo na Fonte.

Primeiro há a Fonte. A Fonte cria um reflexo. O reflexo é o Eu Sou. Agora, Ramana Maharshi diz que a Fonte é o "Eu-Eu". Ele A nomeia de "Eu-Eu" meramente para distingui-la do Eu Sou. O "Eu-Eu" é a Energia latente (potencial). A Energia Potencial torna-se ativa na forma de manifestação como o Eu Sou, e torna-se ciente da manifestação. O Eu Sou é a Consciência (awareness) impessoal da manifestação e do seu funcionamento. Então, para o funcionamento da manifestação acontecer, a Fonte - ou Deus, ou o Eu Sou - cria estes organismos corpo-mente e, por conseguinte "eu's" individuais, ao identificar a Si mesma com esses organismos corpo-mente. Portanto, a Energia Universal, a Energia Potencial, torna-se ativa nesta manifestação. O "Eu-Eu" ao sair do estado latente, torna-se o Eu Sou, e o Eu Sou torna-se o eu sou Markus. Por que o Eu Sou torna-se Markus? Porque sem o Markus e os outros bilhões de nomes, a vida como conhecemos não aconteceria.

Então, a manifestação é real? Ela é real e irreal. A questão - a manifestação é real ou não? Está errada. A manifestação é tanto real quanto irreal: real na medida em que ela pode ser observada, irreal com base que ela não tem existência independente própria dela, sem a Consciência. Desse modo, a única coisa que tem existência independente dela própria é a Realidade, e essa Realidade é a Consciência. A Consciência é a única Realidade. Todo o resto é um reflexo dessa Realidade dentro de Si mesma.

O Eu Sou torna-se um conceito quando você fala sobre ele. Essa pura Ciência (awareness) da Existência é a Verdade, mas a partir do momento que eu falo a respeito dela, Ela se torna um conceito.

Introdução

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Maior é o que está em vós do que o que está no mundo (I João 4:4)