A Natureza da Consciência II - Ramsh Balsekar


Precisamos de conceitos para comunicar até que a mente tenha atingido um estágio onde ela percebe que o que ela está buscando está além da compreensão dela

Pergunta: Não estou certo a respeito da diferença entre a dualidade e o dualismo.

Ramesh: A dualidade é a base na qual esta manifestação acontece. Portanto, se a dualidade é entendida como dualidade, como meros pólos opostos, em que um não pode existir sem o outro, isso é compreensão. Isso é iluminação. É a própria Consciência que descendeu do nível da dualidade para o nível do dualismo e identificou-se com cada objeto e criou essas relações sujeito-objeto de modo que esse Lila (jogo divino) possa continuar. Portanto, é a Consciência que se identificou consigo mesma e continua a identificação por um tempo. Então, algum mecanismo corpo-mente que esteve vivendo sua vida de uma maneira perfeitamente razoável, saudável e feliz, é atingido por um impulso de descobrir, "qual é o sentido da vida?", "estou realmente separado do próximo?" E assim a mente volta-se para dentro, e o buscador inicia sua busca miserável! O processo de desidentificação prossegue então até que ocorre a compreensão de que o dualismo é uma piada, uma piada cósmica. E essa realização eleva o dualismo de volta para o nível da dualidade. Quando aquele nível de dualidade também torna-se insuportável, então o "eu" e o "Tu" também desaparece.

P: Entendo o que você está dizendo. Estou acompanhando com bastante clareza. A Consciência é tudo o que há, e tudo é apenas a Consciência entretendo a si mesma. Mas quando tenho filhos que são paralíticos, é difícil chegar à paz com essa maneira impessoal de ver as coisas. As inquietações pessoais são o que realmente contam.

R: Sim, mas contam apenas para o individuo. Pois o "mim", reagindo aos eventos é tudo o que a vida é. É por isso que o ser humano quer segurança. Mas segurança é algo que não pode acontecer, e, portanto o ser humano é infeliz.

Por trezentos anos a física Newtoniana prevaleceu dizendo que você pode pegar um pedaço do universo, você pode observá-lo e pode entender aquela parte. Mas agora, desde que a teoria da mecânica quântica apareceu, uma partícula se move e o cientista pode saber apenas a sua localização e a sua velocidade, mas não ambos. Se ele sabe a velocidade, ele não pode saber o local onde a partícula estará. Ele não pode saber as duas coisas. Todo o universo e o seu funcionamento estão baseados em polaridade, opostos interconectados: homem-mulher, sujeito-objeto, acima-abaixo, bem-mal, doente-saudável, felicidade-tristeza. Em todo o universo não existe nada que é estático, nenhum planeta, nenhuma galáxia. Tudo está movendo e o movimento significa mudança.

A mente humana pensa em termos laterais, mas quase tudo no universo é circular. Qualquer coisa que muda tem que voltar novamente. O cientista diz hoje que falar num mundo no qual tudo é preciso, constante e mensurável é uma proposição impraticável. Em tal mundo um pequenino elétron dentro de todo átomo teria que trabalhar a cada instante sem parar. Ele queimaria a si próprio. Toda a energia pararia. Tudo voltaria dentro de um núcleo.

A vida é incerteza. Isso é o que o místico tem dito por milhares de anos, e agora o cientista concorda. Temos que viver com a insegurança. Temos que viver com a mudança. Segurança é um mito. Você não pode viver com segurança; e tentar fazer isso significa frustração. Compreender profundamente isso e aceitar que viver e que a vida está baseada em mudança, a pessoa gostando disso ou não, é um grande passo a frente.

P: Sinto-me confortável com o conceito de uma consciência-mãe amorosa, que deseja que eu cresça através dessa existência. Estou tendo dificuldades de adequar isso com o que você está ensinando.

R: O amor e o ódio são opostos interconectados na fenomenalidade. Na fenomenalidade, nada neste universo pode existir exceto em bases duais. Nada é único, nada é constante, nada. Tudo está mudando o tempo todo. A mudança e os opostos interconectados são a própria essência da existência.

A dificuldade surge quando a mente-dividida do sujeito-objeto não aceita que o amor e o ódio são opostos, que o bem e o mal estão interconectados. Um não pode existir sem o outro. A beleza não pode existir por si mesma. No momento que você fala da beleza, a feiúra já está lá. No momento que você fala da bondade, o mal já está lá. Como você pode falar da beleza na ausência da feiúra? O ser humano quer experimentar uma e não a outra. Isso não pode ser feito.

Nada pode ser constante na vida. A mudança é a própria base da vida. Também com a felicidade, a infelicidade está automaticamente conectada com ela, pois a mudança é inevitável. A miséria vem porque a mente-dividida compara, julga, e quer a felicidade à exclusão da infelicidade. A mente-dividida não aceita que a mudança está fadada a acontecer.

Quando surge a compreensão que, "isso também passará", seja miséria ou felicidade, essa compreensão trará uma tremenda mudança na perspectiva. Então quando há alguma compreensão, você não considera que aqueles que não a possuem são indignos, você não se considera ser "um favorito de Alá", pois você sabe que este estado de consciência passará, e outros estados de consciência virão. E quando os outros estados de consciência surgirem, você não se sentirá miserável, pois eles não eram totalmente inesperados. Isso não trará a miséria na profundidade que teria trazido anteriormente. Portanto a base dessa aceitação é que tudo está movendo, e, portanto a mudança é a própria base da vida e basicamente tudo é ilusão.

P: Parece-me que tudo pode ser considerado irreal, exceto o fato de que eu existo. Há uma diferença entre o "eu existo" e o possessivo "meu", como o "meu corpo", "minhas ideias", "minha casa", a existência em si é incontestável.

R: Portanto, o que quer que digamos, o que quer que pensamos é um conceito. A única coisa que não é um conceito, a única verdade, é o sentido de presença. Eu sou. Estou vivo. Essa é a única verdade. Mas essa verdade, mesmo essa verdade está no nível dos fenômenos.

P: E essa verdade também é um conceito.

R: Certo. Finalmente, até esse Eu Sou é um conceito. Mas na ausência de todos os outros conceitos, a única coisa que sabemos (tudo mais é um conceito) é o sentido e presença: Eu Sou, Eu existo. Se você imaginasse que você é o único ser senciente na terra, então o sentido de presença seria tudo o que existiria. E nesse caso não haveria nem mesmo o sentido de que "eu existo". O sentido seria, "há a existência". Existe a consciência porque existe algo o qual se estar ciente a respeito, e isso é o resto da manifestação.

P: E se não colocarmos isso em palavra então é verdade.

R: Sim. Isso é a Realidade.

P: "Eu Sou". Essa é a única coisa da qual podemos saber?

R: Correto. Eu sou, aqui e agora, no momento presente.

P: Como sabemos isso?

R: Você não sabe disso?

P: A maneira como sei disso é que eu sempre tenho um pensamento que Eu Sou. Eu sinto as coisas.

R: Não. Não!

P: O próprio sentido de presença?

R: Correto. O sentido de presença está sempre ai. Portanto, o que estou dizendo é, você não tem que ter o sentido de presença. O sentido de presença está ai.

P: Sem um objeto?

R: Sim. Originalmente esse sentido de presença é impessoal. Quando você acorda pela manhã o primeiro sentido de presença é impessoal. Então emerge em você, o Eu sou tal e tal. A identificação pessoal vem depois. Originalmente há meramente o sentido de presença impessoal.

P: Você realmente não é um "eu" ("mim") de maneira nenhuma. Não há o sentido de ser um "mim" ("eu")?

R: Correto.

P: O sentido de presença depende de que haja um corpo.

R: Sim. O sentido de presença surge apenas quando há um corpo. Se não houver um corpo, não há um instrumento no qual o sentido de presença possa aparecer.

P: É um instrumento muito frágil.

R: De fato! Mas o único ponto é que existem bilhões deles. Então se um vai, não importa. Neste corpo existem milhões de células morrendo e sendo criadas o tempo todo. Alguém jamais pensa naquela célula individual? "Pobre célula, não viveu quase nem meio segundo e morreu!"

P: Você está falando sobre aceitação e sobre sentir a presença do presente e ver tudo o que está a nossa frente como sendo o que a vida é?

R: Isso. Novamente, deixe-me repetir, qualquer coisa que eu diga, ou que qualquer pessoa diga, qualquer coisa que as escrituras dizem, é tudo um conceito. Precisamos de conceitos para comunicar até que a mente tenha atingido um estágio onde ela percebe que o que ela está buscando está além da compreensão dela.

Então a mente irá aquietar-se e então o silêncio irá reinar. Até lá, até mesmo esse sentido de presença do qual estamos falando a respeito está no nível dos fenômenos. Você vê, existe a presença do sentido de presença e a ausência do sentido de presença. No sono profundo ou sob efeito de sedativos há uma ausência do sentido de presença. Então existe a presença e a ausência desse sentido de presença. Essa presença e ausência dele é parte da fenomenalidade. Na não-fenomenalidade, a qual é o potencial, que é a consciência-em-repouso, há a ausência tanto da presença do sentido de presença quanto da ausência dele.

Deixe-me colocar de outra forma, (embora nenhuma ilustração jamais possa ser completa em si mesma, pois uma ilustração constrói um objeto e o assunto que estamos falando a respeito não está nem um pouco relacionado ao nível dos objetos): Você acorda de manhã. Você está desperto. Existe a presença da barba. Você a raspa. Agora existe a ausência da presença da barba. Mas num mino existe a potencial presença e ausência da barba. Há uma ausência da presença da barba e uma ausência da ausência da barba. Potencial, sim- portanto estou falando sobre Aquele estado; aquele estado original onde há uma ausência de ambos a presença do sentido de Presença quanto da ausência da ausência do sentido de Presença.

P: A Consciência-em-repouso não é simplesmente aquele conceito básico sobre o qual a Consciência-em-movimento ocorre?

R: Correto.

P: Mas a cessação dos pensamentos, a cessação da atividade, para que postular ou conceitualizar que ela vai para algum lugar? Por que não é simplesmente uma cessação de movimento?

R: Novamente, está absolutamente correto. Assim, mais nenhuma questão permanece. Concordo inteiramente. Mas, por essa questão persistir, você tem que receber um conceito adicional.

Isso é o que pode ser chamado de um problema divergente. Os cientistas lidam com problemas que são convergentes. Cem cientistas realizando o mesmo experimento devem obter o mesmo resultado. Quando o problema diz respeito a uma experiência interior da Consciência, torna-se um problema divergente. Em outras palavras, problemas divergentes são causados pelo intelecto, ao dividir o que por natureza é total e indivisível. O intelecto cria o problema ao dividir polaridade. Os opostos que existem não podem existir por si mesmos. Não pode haver o "para cima" sem o "para baixo", não pode haver a beleza sem a feiúra. Mas o que o intelecto quer é, isso ou aquilo. Ao comparar e querer selecionar, o intelecto cria um problema divergente, e problemas divergentes jamais podem ser solvidos. Um problema divergente pode apenas dissolver através da compreensão do próprio problema, da compreensão que ele realmente não é um problema, que ele é criado pelo intelecto querendo escolher entre os opostos que não são opostos de maneira nenhuma. São interrelacionados.

Por exemplo, na educação uma ideia é que o aluno deve ter disciplina. Portanto um pouco de disciplina é bom, mais disciplina é melhor e disciplina total é perfeita. A escola se torna uma prisão. O outro lado diz, "Não, o aluno deve ter liberdade de pensamento e de ação". Portanto, se um pouco de liberdade é uma boa coisa, mais liberdade deve ser melhor, e liberdade absoluta seria perfeita. Então a escola torna-se um caos. Assim, o isso ou aquilo, querer escolher entre dois opostos é criar um problema divergente. Os dois opostos estão interrelacionados, você não pode ter um ou o outro. Quando isso é entendido, e que o universo inteiro está baseado nessa polaridade onde você não pode escolher, então não é necessário solver o problema. O problema se dissolve.

Havia dois monges estudando num seminário e ambos apreciavam muito fumar. O problema deles era, "É permitido fumar quando estou orando?" Eles não conseguiam chegar a um acordo, então cada um disse que iria falar com seu superior. Ao se encontrarem novamente mais tarde, um monge perguntou para o outro se o abade tinha dito se era permitido fumar. Ele disse: "Não, fui severamente repreendido até mesmo por mencionar isso. O que seu abade disse?" O outro respondeu: "Ele ficou feliz comigo. Disse que tudo bem. O que você perguntou ao seu superior?" "Perguntei se eu podia fumar quando estava rezando". "Então é por isso. Eu perguntei, 'posso rezar quando estou fumando?'"

O mesmo problema depende de como o vemos. É tudo uma questão de perspectiva. A base da vida é a polaridade e a polaridade aparece devido à mudança. O universo e tudo nele estão num movimento continuo. E movimento não significa movimento lateral como o intelecto humano pensa. É um movimento circular. Portanto as mudanças devem acontecer. Se isso não é entendido, então cria problemas. E a maioria dos problemas da vida são problemas divergentes.

Ramesh S. Balsekar






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