Do livro “Eu Sou Aquilo” - Nisargadatta

A Sensação de Ser do "Eu Sou"

Como não posso ser o que percebo, não sou este corpo-mente ou qualquer coisa da qual esteja consciente.

Não sou esta pessoa, este corpo-mente ou qualquer coisa.

Até mesmo dizer que você não é o corpo não é de todo verdade. De certa maneira você é tudo, os corpos, os corações, os espíritos, e muito mais ainda. Mergulhe profundamente na sensação "eu sou" e encontrará. Como reencontrar algo perdido ou esquecido? Você aguarda presente no espírito até que ela venha a você. A sensação de ser do "eu sou" é a primeira a emergir. Pergunte-se de onde ela vem ou contente-se de contemplá-la com calma. Quando o mental se fixa, imóvel, sobre "eu sou" você entra em um estado que você não pode exprimir, mas você pode experimentar. Tudo que você tem a fazer é tentar sem cessar. Apesar de tudo, esta sensação "eu sou" lhe é sempre presente, mas você a transplantou para todo gênero de coisas: corpo, sentimento, pensamento, opinião, posses interiores ou exteriores etc. Por causa delas você se tem por algo que você não é.

Como corpo, você está no espaço. Como mente, você está no tempo.

Mas é você um mero corpo com uma mente nele? Você já investigou alguma vez?

Por que não investigar a própria ideia de corpo? É a mente que surge no corpo ou é o corpo que surge na mente? Certamente deve haver uma mente para conceber a ideia "eu-sou-o-corpo". Um corpo sem uma mente não pode ser "meu corpo". "Meu corpo" estará invariavelmente ausente quando a mente está ausente. Ele também está ausente quando a mente está profundamente engajada em pensamentos e sentimentos.

Você observa o coração sentido, a mente pensando, o corpo agindo; o próprio ato de perceber mostra que você não é o que você percebe.

O percebido não pode ser o percebedor. O que quer que você veja, ouça ou pense a respeito, lembre-se - você não é o que acontece, você é aquele para quem isso acontece.

Desejo, medo, problema, alegria, eles não podem aparecer a menos que você esteja lá para que eles possam te aparecer. Assim, o que quer que aconteça aponta para sua existência como um centro de percepção. Abandone os apontadores e esteja consciente daquilo que eles estão apontando.

Quando você realiza que a distinção entre o interno e o externo só existe na mente, você não mais temerá. Você não é o corpo nem está no corpo.

Não há tal coisa como o corpo. Você se confundiu gravemente. Para compreender corretamente, investigue. Você não está no corpo, o corpo está em você! A mente está em você. Eles acontecem para você. Eles estão lá porque você os acha interessantes.

Você só sabe que reage. Quem reage e a que, você não sabe. Você sabe imediatamente que você existe: "Eu sou".

O "eu sou isso", "eu sou aquilo" é imaginário.

Para mim mesmo, eu não sou nem percebível nem concebível; não há nada para onde eu possa apontar e dizer: "isso sou eu". Você se identifica com tudo tão facilmente! Eu acho isso impossível. O sentimento "eu não sou isso ou aquilo", e "não há nenhum meu" é tão forte em mim que tão logo uma coisa ou um pensamento aparece, imediatamente surge o senso "isso não sou eu". O que quer que você possa ouvir, ver ou pensar a respeito, eu não sou aquilo. Eu sou livre de ser um preceito ou um conceito.

Como você não pode ver sua face, mas somente seu reflexo no espelho, assim você pode conhecer somente sua imagem refletida no espelho de pura consciência. Veja as impurezas e remova-as. A natureza do espelho perfeito é tal que você não pode vê-lo. O que quer que você veja serão sempre impurezas. Dê as costas para elas, abandone-as, aperceba-se delas como não desejadas. Todas as percepções são impurezas.

Tendo aperfeiçoado o espelho de modo que ele reflita corretamente, verdadeiramente, você pode virar o espelho e ver nele um reflexo de si mesmo - verdadeiro na medida em que espelhos refletem. Mas o reflexo não é você mesmo - você é o observador do reflexo.

Lembre-se, nada que você perceba é você mesmo.

O que é realmente seu, você não está consciente.

Você não é nada do que possa estar consciente.

Como deve haver algo imutável para registrar descontinuidade, eu não sou este corpo-mente, o qual não é nem contínuo nem permanente.

A mente é descontinua. De novo e de novo ela sai do ar, como em um sono ou distração. Deve haver algo contínuo para registrar a descontinuidade.

Memória é sempre parcial, não confiável e evanescente. Ela não explica o forte senso de identidade que permeia a consciência, o senso "Eu sou". Encontre o que está na raiz dele.

Você não pode estar consciente daquilo que não muda. Toda consciência é consciência de mudança. Mas a própria percepção de mudança - ela não necessita de um fundo imutável?

O eu baseado na memória é momentâneo. Mas tal eu demanda uma continuidade inquebrantável por trás dele. Você sabe por experiência própria que há intervalos, falhas quando seu eu é esquecido. O que o trás de volta à vida? O que o acorda pela manhã? Deve haver algum fator constante suprindo as falhas na consciência. Se você olha cuidadosamente, você descobrirá que até sua consciência diária acontece em flashes, com falhas intervindo todo o tempo. O que existe nesses intervalos? O que mais pode ser senão seu ser real, que é fora do tempo? A mente e a não-mente são um para ele.

Nisargadatta Maharaj

Fonte: http://metamorficus.blogspot.com/2009/07/eu-sou-aquilo.html

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