Considerações – Sobre John Sherman



Identificação Equivocada

Ao ler John Sherman, inicialmente duvidei se ele sabia sobre o que estava falando.

Eu acredito que a maneira que John Sherman aborda a questão do ego, pode confundir alguns iniciantes. Portanto, para compreender melhor o que ele diz, é necessário saber antes o que significa "identificação equivocada".

Identificação equivocada significa confundir a aparência humana com quem nós realmente somos. Significa também apego, ficar perdido ou distraído nas coisas.

Através do ensinamento de Ramana, John Sherman inclui no termo "mim mesmo", o ser e o ego (tudo). Ao observar atentamente e sentir tudo em mim mesmo, sem tentar fugir nem resistir à realidade, chegamos ao pano de fundo, ao Ser além das aparências, além do teatro e espetáculo da vida cotidiana. Então começamos a perceber a diferença entre o falso e o verdadeiro, entre o impermanente e o permanente. Embora ainda sejamos as duas coisas, afinal ainda temos um corpo, ainda somos humanos. Queiramos ou não.

Logo, o "abandono", a "dissolução" ou "morte" do ego, significa apenas força de expressão, que aponta para o fim natural da ilusão, para o fim da identificação equivocada, na medida em que compreendemos a verdade, o que é falso e o que é verdadeiro. Quando ainda acreditávamos que éramos a aparência, corpo-mente, um indivíduo limitado que nasce e morre.

Enquanto vamos compreendendo melhor a respeito de nós mesmos, sem tentar ignorar e negar o ego (mim mesmo), enquanto "ele" reivindica seu direito de "existir" individualmente. Em seguida o que é falso e ilusório vai desaparecendo naturalmente sem nos preocuparmos com isso. Pois, é o surgimento natural da verdade em nós que faz desaparecer paulatinamente o falso, o ilusório, a mentira.

Jesus conheceu tanto a respeito do "mim mesmo", estava tão familiarizado que chegava a dizer: "De 'mim mesmo' nada posso fazer". Se o indivíduo, a aparência humana é limitada, quem então é capaz de fazer através do "mim mesmo"? Nós (além da aparência), ou "Eu Sou". Mas, isso só é possível quando sabemos ou experimentamos quem realmente somos agora mesmo.

Se preocupar e se apegar a aparência humana, achando que somos esta pobreza, Mooji chama tal atitude de "saco de lixo". É necessário "enxergar" além da aparência humana. Ou seja:

Todo lugar que você vai, as pessoas carregam suas "mochilas" de personalidade. Até mesmo na praia todo mundo tem uma! [Risadas] O que é essa mochila? É a identidade-ego. "Eu sou único. Eu me preocupo comigo, com meu corpo e minha mente. Olhe como isso tem tido sucesso - observe minha beleza!" [Mais risadas] Elas não conseguem largar este saco de lixo. E, o tempo todo, isto é simplesmente a natureza que está atuando através de cada forma em maneiras singulares. Ela expressa julgamentos e preferências superficialmente. Ela age como se fosse um indivíduo autônomo desconectado dos outros seres sencientes. Na verdade, o oposto é verdadeiro (Mooji).

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... se abandonar todo sentido de si mesmo como um indivíduo, você descobrirá a si mesmo, tal como você é. Se concentrar toda a sua energia, todo o seu talento e intelecto no objetivo de descobrir, direta e imediatamente, a verdade de sua natureza, você desaparece, porque "você" nunca existiu. É isso que torna tudo tão fácil (John Sherman).

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Antes que seja abandonado o “eu”, temos que descobrir exatamente aonde esse “eu” reside. É apenas quando encontramos o “eu”, é que podemos falar em abandoná-lo.

O aspirante deveria iniciar a busca por esse “eu” em seu próprio centro. Ele nunca será encontrado fora de nós. Em cada ser humano o sentido de “eu”, ou ego; e de “meu”, o sentimento de posse; está preenchendo-nos até a borda. Todas as ações no mundo são realizadas pela força desse ego, e o sentido de “meu”. Para rastrearmos esse “eu” vamos primeiro examinar nosso próprio corpo físico grosseiro, que parece tão próximo de nós. Após analisá-lo, vamos ver se esse “eu” pode ser encontrado em algum lugar do corpo... (Siddharameshwar Maharaj).

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Buscando o ego, ou seja, a fonte dele, o ego desaparece. O que sobra é o Ser. Esse método é o direto (Ramana Maharshi).

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A consciência de Cristo pode ser alcançada, mas somente de uma maneira, isto é, através de nosso reconhecimento da natureza do erro... (Joel S. Goldsmith).

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Vejamos um exemplo: Toda madrugada eu acordava com medo. Então eu pensava: “este medo não é meu" e tentava ignorar o medo. Depois, certo dia, eu resolvi observar o sentimento de medo, afinal meu ou não, eu estava sentindo. Então obtive um esclarecimento interior ou um insight. Ou seja: Enquanto ser humano e através da identificação equivocada, expressamos o nosso sentimento mais íntimo: Apreciamos a justiça ou queremos ser justos, temos medo de morrer, queremos ser o melhor ou perfeito. Porque no íntimo, na verdade somos tudo isso e mais ainda (justiça, imortalidade, perfeição). Mesmo assim, enquanto isso, não importa em que acreditamos teoricamente, pois sentimos, sabemos com certeza que somos pessoas comuns e mortais. Por que? Porque temos um corpo frágil e limitado, temos ainda medo, defendemos nosso ponto de vista, ainda somos humanos, etc.

Portanto, não importa se eu já tenha lucidez suficiente, ou se eu já seja de fato um iluminado. Mesmo assim, de repente, diante de algum “perigo”, ou da possibilidade da morte, poderei chorar igual um bebê e dizer: “Pai, se for possível afasta de mim este cálice!”. E se eu tiver um pouco mais de lucidez, direi: “Todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres!”. Quem seria o “tu” nesse caso? O Ser. E quem seria o “eu”? O ego, o corpo-mente.

Por isso John Sherman diz: Tente imaginar um estado no qual o corpo se desloca, faz as coisas que faz, fala e se comunica, em meio a um branco absoluto, no qual a ilusão da existência desapareceu. Isto é desconcertante! E essa ideia causa um sofrimento considerável, por causa de nossas tentativas constantes de imitar, criar e fabricar semelhante estado.

Conclusão: Mesmo que sejamos iluminados, temos um corpo, somos humanos e não sobre-humanos. Ainda teremos algum medo, alguma fraqueza humana, ainda ficaremos indignados com algumas coisas, e talvez façamos algo como derrubar as mesas dos cambistas no templo, afinal somos humanos. O desejo, a compulsão, a carência, o apego, o orgulho e o egoísmo estarão bastante reduzidos, mas ainda teremos. E se estivermos na expectativa de que para ser iluminado temos que ser realmente sobre-humanos, então continuaremos acreditando que estamos distante da Verdade e que a Verdade seja algo difícil ou impossível de alcançar e continuaremos com a mesma fé pessimista dos fariseus. Contudo, se o seu desejo e compulsão são ainda muito fortes, continue procurando compreender a Verdade interior, sem se sentir inferior e menos capaz. Porque tudo isso é natural e todos nós passamos por isso, inclusive Jesus Nazareno (humano). Agora, se você já percebeu a transformação interior, continue humildemente procurando compreender um pouco mais a Verdade, porque ela nunca é demais.

Edmilson S. Jesus

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Maior é o que está em vós do que o que está no mundo (I João 4:4)