O Significado da Adoração - Dayananda Saraswati


É o Senhor que a sua mente superimpôs num objeto, que você venera, e essa adoração beneficia apenas você mesmo

"Quatro tipos de pessoas me buscam, Arjuna: o aflito, o que aspira ao conhecimento, o que procura riqueza material e o sábio." (Bhagavadgita VII:16).

Um arthartin é aquele que vai em busca de objetos e situações, considerando-os a fonte de segurança. Achando que seu esforço e planejamento talvez não sejam suficientes para obter o sucesso, ele reza para que o Senhor se torne seu sócio no negócio. Um arta, que é uma pessoa totalmente desamparada, volta-se para o culto para alívio de suas aflições. Um jnanin é aquele que considera que o individual não é diferente do total, e está em condições de manter este conhecimento, apesar de lidar com o mundo dual e dos problemas que enfrenta. Devido a essa unidade da visão, um sábio não pode afastar-se do Senhor. Qualquer coisa que faça é adoração do Senhor, porque ele sabe que todas as ações nada mais são do que o Senhor. Ele é, por definição, incapaz de se confundir a esse respeito.

Um "jnanin-em formação" é um jijnasu, alguém que quer apenas conhecimento. Tendo visto a inerente limitação do que a vida é capaz de dar - uma mistura de poucos prazeres e alguns estímulos positivos - ele quer em vez disso libertar-se de todas as formas de limitação, e avalia que isso não é possível pelo emprego de qualquer quantidade ou qualidade de ação. Esta pessoa não está apta a ver a unidade, e ao mesmo tempo não está em condições de se sentir feliz na dualidade: como última esperança, procura um professor. No processo do estudo, devido à frustração ou à incapacidade para entender as escrituras ou manter o ensinamento, e percebendo seu desamparo, compreende que seu único refúgio é o Senhor. Com isso, sua adoração passa a ter maior força.

Assim, jijnasu, arthartin e arta - todos são efetivamente abençoados porque estão em condições de eliminar o sentimento impulsivo de que "Deus é responsável por meus problemas" e voltam-se para Deus, como auxílio na obtenção do que buscam. Um jnanin, devido ao seu conhecimento, não faz mais do que adorar por meio de cada ação. Por isto Krsna diz: "Todos são nobres, mas o sábio (jnanin) eu o considero de fato como Eu mesmo" (Bhagavadgita VII:18). Esses quatro tipos que buscam o Senhor representam a variedade de razões para a adoração.

Símbolos da adoração

O objeto do culto prescrito nos Vedas era uma forma sutil, não uma imagem com forma. A mais sutil de todas as formas é o espaço, mas a maior parte das pessoas não possui a firmeza de mente que lhe permita ter um altar e orar junto a ele, invocando o espaço e lhe fazendo um oferecimento. A forma mais sutil com que se pode de fato lidar, e por essa razão facilmente apreciar, é o fogo; daí ser o ritual védico centrado no fogo. Acende-se um fogo e, tendo invocado o Senhor neste fogo, a esse Senhor oferece-se ghee, arroz e assim por diante. Não é o fogo que é adorado, mas o Senhor invocado no fogo; até que essa invocação seja feita, aquele fogo não difere de qualquer brasa do carvão, na cozinha.

Nos Vedas, a adoração é feita sob a forma de mantras, símbolos sonoros, que devem ser cantados. Não se espera que as pessoas meditem no significado dos mantras, enquanto cantam; de fato, a mente não consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quando é a vez do canto, não se faz meditação. E quando se faz modificação, não há canto. A repetição, sozinha - sem qualquer contemplação, é capaz de produzir resultados.

Ilimitado surgiu num estágio posterior da evolução do ritual. Se alguém considera que o Ilimitado inclui todas as formas e é ele mesmo sem-formas, então não existe uma forma que possa ser tida como superior para representá-lo. Por causa desta compreensão, nos templos das épocas antigas e até hoje nas casas de pessoas tradicionais, no Sul da Índia, o objeto do culto é uma "forma sem-forma", como uma sivalinga, uma pedra elipsoidal, cuja aspecto indiferenciado representa Siva, o Senhor que é todas as formas. Visnu é invocado numa salagrama, uma pedra em que há uma única cavidade natural. Adoradores de Surya, o sol, usam como símbolo um vidro de cristal natural. Ganesa é representado por uma pedra vermelha, naturalmente moldada de uma forma determinada. Para os adoradores de Sakti, o Senhor em forma de deusa, é usada uma pedra com pequenas incrustações em ouro.

O uso de ídolos com forma, tendo mãos, pés, cabeça, etc., só se tornou popular a partir do século XII d.c.. Nessa época, para contrabalançar o impacto do Budismo com seus Buddhavihars e ídolos imensos, os deuses dos Puranas hindus foram representados por ídolos com forma para serem usados no culto. Mas mesmo hoje em dia, em vilarejos da Índia, um devoto poderá pegar uma pedra que está jogada num canto, colocá-la num lugar, chamá-la de Deus e venerá-la - e esse lugar será um templo.

Um verso escrito em tâmil diz: "Você coloca uma pedra (em algum lugar) e diz que é Deus; oferece-lhe algumas flores, faz algumas voltas em torno dela, murmura algum mantra, cujo significado você desconhece. Será que esta pedra vai lhe falar, se Deus está dentro de você? " Será que a caçarola e a concha que você usa para cozinhar conhecem o gosto da comida ? Você não cozinha para benefício delas, do mesmo modo como não faz um ritual para o benefício do objeto ou do ídolo que está diante de você. É o Senhor, que a sua mente superimpôs nesse objeto, que você venera, e essa adoração beneficia apenas você mesmo; no caso de um jijnasu, serve para a obtenção da firmeza da mente necessária para um estudo bem sucedido. Se você não consegue compreender que essa é a razão pela qual você está praticando esses atos, sua adoração torna-se um ritual vazio.

O Senhor como o Conhecimento

No decorrer do tempo, outros aspectos da vida humana assumem o papel de objeto da adoração, representando o Senhor. O conhecimento é um dos aspectos mais importantes na vida de um ser humano, seja o conhecimento de Brahman, ou o conhecimento relativo a alguma coisa qualquer. Quem investiga a natureza e suas leis logo descobre que o conhecimento dessas leis é tão antigo quanto às próprias leis, mesmo que esta descoberta seja relativamente recente. A lei da gravidade não passou a existir apenas quando Newton nasceu, e menos ainda quando ele a formulou! Se tento encontrar um lugar de origem para qualquer conhecimento, este lugar não pode pertencer a alguma pessoa qualquer; só pode ser o altar do Senhor.

Como não é possível fixar uma origem para o conhecimento, também não se pode afirmar a existência de um tempo para a criação do conhecimento. Possivelmente, há um tempo para você saber, ou para você saber que não sabe, ou para você ser lembrado de algo, uma vez sabido e agora esquecido; mas o conhecimento em si é atemporal e não teve começo. O conhecimento em si é sem começo; se você o recebe de um professor, que deve tê-lo recebido de seu professor, quem é o primeiro professor? E, como não tem outra resposta para dar, você coloca o Senhor no lugar do primeiro mestre.

Assim, a origem de onde podemos ver que provêm todo o conhecimento, as artes e os ofícios, só pode ser o Senhor. E com esse espírito criamos uma deidade que simboliza o Senhor enquanto conhecimento: essa deidade tem o nome de Sarasvati.

O princípio de Sakti

O ponto central de toda a tradição do Vedanta consiste na afirmação de que apenas Brahman existe; mas, no momento em que você fala do Senhor, do mundo ou de você mesmo, outra coisa é posta em cena. Mesmo quando alguém pronuncia o mantra "Om namassivaya", este som é associado com alguma manifestação. Essa inexplicável associação entre aquilo que não existe (Maya) e aquilo que é (Brahman) é o que chamamos de Isvara, o Senhor. No momento em que dizemos Isvara, "aquele que possui a soberania", (nesse momento) existem dois - aquele que comanda e aquele que é comandado. Isvara automaticamente inclui Isvari, que é Maya, Sakti.

Nos tempos antigos, um santuário que possuísse um sivalinga não teria uma deidade distinta chamada de deusa ou mãe. A própria forma da linga incorporava automaticamente Siva e Sakti, porque a forma existe apenas como produto de Sakti. Mais tarde, Sakti passou a ser simbolizada como uma deidade feminina, considerada como a causa material ou a "mãe" da criação, assim como a causa eficiente era tida como o "pai". A mente sente-se mais à vontade quando o Senhor é reverenciado como mãe, porque há mais amor e menos medo em relação à mãe do que ao pai. Assim, o culto de Sakti difundiu-se e até tornou-se predominante em certas regiões da India.

Nos Puranas, todos os deuses são casados e felizes no casamento. Siva, o destruidor, é casado com Durga, que representa a força ou a capacidade. Visnu, o conservador do universo, é casado com Laksmi, que simboliza a riqueza; e Brahma, o criador, é casado com Sarasvati, que simboliza o conhecimento. Essas três coisas - capacidade, riqueza e conhecimento - receberam o status de deusas, e o grupo das três, quando consideradas como uma, é Sakti, que não é separada da Consciência. Assim, a análise mostra que existe apenas um Brahman não-dual, que se manifesta como muitos.

Superando obstáculos

Devido à minha incapacidade em compreender que esta dualidade é apenas aparência, reverencio uma forma particular, numa tentativa de conhecer esta devoção, que se expressa na forma do amor mais elevado, um amor que não admite a alteridade. Esta bhakti é a meta, o conhecimento da unidade que estou procurando, mas que não consigo encontrar devido a vários obstáculos. Esses obstáculos podem dizer respeito à própria pessoa, como, por exemplo, uma mente dispersiva, uma dor de cabeça ou uma alergia. Podem existir obstáculos causados pelo ambiente externo ou por coisas que se acham aparentemente além desse mundo. Talvez você tenha que interromper seu estudo para cuidar de alguém que caiu doente, ou para escapar a uma inundação que esteja ameaçando sua casa. Um jijnasu volta-se, então, de novo, para o Senhor, pedindo proteção face a essas obstruções.

Se não vemos obstáculos em nosso caminho, pelo menos de vez em quando, sentimos a ausência de graça. Diz-se que para ser totalmente abençoado pelo ensinamento é preciso que se tenha quatro tipos de graça. A primeira é atmakrpa: você precisa ter a sua própria graça, senão não conseguirá sentar e escutar - ficará entediado, frustrado ou zangado, e desistirá. A segunda é Isvarakrpa: você precisa ter a benção do Senhor para encontrar o mestre certo. Gurukrpa é a terceira: essa graça não significa que o mestre distribui os favores aleatoriamente, de acordo com o seu capricho. Como outras formas de graça, gurukrpa é algo que você ganhou, embora não possa saber como, nem quando. A apreciação de que o professor, o ensinamento e aquele que é ensinado não são diferentes invoca o que se chama de gurukrpa, que o abençoa com a habilidade de tornar o ensinamento vivo para os outros, quando você se acha na posição de professor. Sastrakrpra, o quarto tipo de graça, é a benção das escrituras que você está estudando. Se o significado de um verso está claro e se tudo o que você ouviu e que com ele se relaciona lampeja em sua mente, então você é de fato grandemente abençoado - não porque exibiu habilidade na exposição, mas devido à sua própria contemplação e estudo. Se alguém sente falta de qualquer uma dessas quatro graças, como fazer para obtê-la? Sem dúvida, a pessoa precisa fazer o esforço apropriado, mas, ao compreender que também existem fatores que estão além do seu controle, ela reverencia o Senhor, que é todo o Conhecimento.

Dayananda Saraswati






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