Sobre o Exercício da Divisão em Dois - G. I. Gurdjieff

Percepção da Realidade Interior

[Sr. Gurdjieff pede aqueles que haviam retornado das férias para darem um depoimento a respeito de seu trabalho interior].

Sra. Franc: Fiz os dois exercícios que você nos deu durantes as férias, o exercício da divisão em dois (divisão entre "eu" e o organismo) e o das sensações de calor, frio, e das lágrimas. Não posso dizer que eu tive muito resultado com esses exercícios, mas tive um resultado na compreensão. Quanto ao da divisão em dois, não posso dizer que consegui fazê-lo, mas o trabalho me deu um centro de gravidade na minha cabeça. Isso mudou muitas coisas para mim e permitiu-me desidentificar-me um pouco do meu corpo; e agora consigo ver mais claramente no meu trabalho. Sei melhor o que estou fazendo e como devo fazer o trabalho. Isso mudou os valores.

Gurdjieff: Já entendi que você tinha uma personalidade. Agora você sente em si algo, uma separação. O corpo é uma coisa e você é outra coisa.

Sra. Franc: Isso é o que sinto, e é algo que julga.

Gurdjieff: Você deve parabenizar-se. Estou contente com todo meu ser. Isso é a primeira coisa. Sem isso você jamais pode continuar. Sem isso, por dez anos, cem anos, seu trabalho será apenas titilação.

Sra. Franc: Parece-me que alguma coisa foi superada.

Gurdjieff: Agora você deve fixar isso. Você deve nutrir a criança para que ela possa crescer. Dê a ele um bom leite, alguns ovos, tudo o que é necessário para uma criança. Quando ele for um jovem garoto, ele estará apto a falar e eu conseguirei entendê-lo. Para mim seu depoimento já basta.

Sra. Franc: Gostaria de te falar também que o exercício nas sensações me mostrou que eu estava vivendo em imaginação, pois noto que é apenas quando experimento alguma coisa organicamente que aquilo é real; mas não consigo concentrar-me o bastante na figura da imagem.

Gurdjieff: Em geral essa é sua fraqueza. Não é necessário falar disso. Já é algo subjetivo. Agora se eu explicar algo, você pode entender. Antes você não podia entender nada. Na primeira vez você se ofendeu. E se eu digo algo para você agora você pode entender.

Mechin: Eu tentei continuar o exercício da divisão em dois e vendo que eu não conseguia ter sucesso nele, pensei que isso acontecia porque o "eu" em mim não era forte o bastante. Toda a minha atenção estava movida para o "eu sou" e, de fato, isso desenvolveu pouco a pouco uma sensação muito mais forte do "eu", que eu nunca tinha tido. Eu constatei de fato que isso mudou todos os valores para mim, que o que eu tinha entendido teoricamente até agora, eu entendo de uma maneira diferente agora, e isso me fez entender também muitos problemas, o que fixou em mim a necessidade de, a partir deste momento de desempenhar um papel*. Mas como durante as férias eu estava sozinho no papel que eu tinha que desempenhar, tinha que atuá-lo com meus pais, e acima de tudo com minha mãe; era ai que eu tinha dificuldade. Eu constatei que eu era completamente incapaz de desempenhar um papel, que isso era impossível.

Gurdjieff: Você entendeu o que significa desempenhar um papel; você entendeu que valor isso tem para você, você sentiu o gosto disso?

Bravo!

Mechin: Então, lutei para fazer o exercício da divisão. Tentei entendê-lo e um dia ao passar na frente de um espelho, fiquei muito surpreso de ver que eu me vi como um estranho. Pensei que eu deveria fazer uso dessa evidência para fazer o exercício; depois, ao fazer o exercício eu me vi como havia visto no espelho; tinha tido apenas uma imagem fria sem vida. Vi um corpo sem vida e tentei estabelecer relações com meu corpo real. Ao tentar fazer isso, pareceu-me que isso me deu, antecipadamente, um gosto do que deve ser a divisão. Senti que temos que fazer isso.

Gurdjieff: É o bastante, você nasceu. Sua individualidade nasceu. Antes você era como um animal sem "eu". Agora você tem um "eu" e as propriedades de um homem. Esse exercício lhe deu isso. Antes você não tinha individualidade, você era o resultado do seu corpo, como um cachorro, ou um gato, ou um camelo. Agora você tem chifres**, você pode vê-los e se surpreender com eles. Antes você não podia ver nada. Você tem agora uma individualidade que você não tinha. [endereçando aos outros alunos] Ele adquiriu uma individualidade. Antes ele não tinha nenhuma. Ele era um pedaço de carne. Ele poderia ter trabalhado por mil anos, ele nunca teria tido nenhum resultado. Você é camarada da Sra. Franc. Ambos vocês tornaram-se iniciados na primeira iniciação. É uma coisa pequena, mas é uma coisa grande, uma garantia para o futuro. Parabenizo você também. Pela primeira vez em três anos estou feliz internamente. Estou feliz por meus esforços. Porque não é por acaso que aqui já tem dois. Você não está mais desposado, não é mais Mechin, você é meu irmão casula, [para Sra. Franc] você é minha irmã. Falaremos em particular depois.

Gurdjieff [para Yette]: Você não está feliz?

Yette: Sim, e posso dize que o que Sra. Franc disse parecia eu mesma falando, pois por algum tempo há algo completamente novo em mim e há também um medo de ver isso desaparecer. Porque de maneira geral, salvo em raros momentos, houve algo em mim que não estava ali anteriormente essencialmente algo na minha cabeça, algo que eu senti na minha cabeça onde eu me apoiava e que me separa do resto, que é distinto do corpo, de tudo o que eu sou, do meu sentimento.

Gurdjieff: Você pode dizer talvez, que você é uma coisa e seu corpo outra coisa. Antes você não podia dizer isso com muita sinceridade.

* (O Sr. Gurdjieff instruía seus alunos a nunca mostrarem exteriormente que internamente eles estavam fazendo um trabalho interior, ou trabalho sobre si mesmos. Ele chamava isso de atuar um papel. Internamente a pessoa estava tentando estar desperta, tentado não se identificar, mas externamente ela se comportava como de costume, como costumava se comportar antes de começar a fazer esse trabalho).

** Para a melhor compreensão desse termo usado pelo Sr. Gurdjieff é recomendado a leitura do livro: "Relatos de Belzebu a Seu Neto".

G. I. Gurdjieff

Fonte: http://ricardo-yoga.blogspot.com/

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Maior é o que está em vós do que o que está no mundo (I João 4:4)